Quinta-feira, 31 de Janeiro de 2008

Uma fascinante ideia de composição e improvisação

   Fotos: cortesia Casa da Música e © João Messias
                                                                                      
                                                                              
Embora a situação não possa comparar-se à que se vivia no meu tempo –  havendo hoje múltiplos concertos e festivais de jazz a realizarem-se um pouco por todo o país, muitos dos músicos mais importantes em várias correntes do jazz actual a visitarem-nos e, apesar de tudo, uma oferta discográfica que  (embora tenha já conhecido melhores dias)  pode considerar-se representativa do que hoje se faz neste domínio musical  –, é possível ainda encontrarem-se pessoas que, afastadas por inércia do conhecimento ou da fruição empenhada do jazz, continuam a considerá-lo uma música incompreensível, em que «cada um toca para seu lado».
 
Lembrei-me disto ao ouvir os primeiros momentos do prometedor concerto realizado por Anthony Braxton com o seu sexteto, na passada segunda-feira 28, na Casa da Música (Porto), e ao confrontar-me com a situação de não ter sido considerada plausível ou oportuna a distribuição de uma simples folha de sala que pudesse dar algumas pistas de audição aos muitos espectadores que quase encheram o auditório principal e que só um optimismo pouco realista poderia levar a supor estarem inteiramente sintonizados com o que iriam ouvir. Uma lacuna tanto mais notada quanto se adivinhava, nesse concerto que acabara de começar, a proposta de uma música complexa, face à qual apreciações apressadas poderiam conduzir à repetição  (ou simples intuição)  daquela infeliz frase que, de forma anedótica e simbólica, atrás reproduzi.
 
E o certo é que haveria muito que dizer e prevenir acerca da estratégia de composição e improvisação que se viveu naquele concerto, no qual mais uma vez foram postos em prática os pressupostos teóricos que Anthony Braxton faz reviver na sucessão e gestão de eventos musicais que, sob o seu conceito Ghost Trance Music, nos propõe  (e aos companheiros de aventura)  durante o longo tempo de duração de uma única «peça», tempo aliás meticulosamente medido pela generosa ampulheta que o mestre coloca, bem visível, à frente de todos.
 
Em termos claros, ao abordar os meandros deste conceito de criação musical, é de um estádio de intensa partilha artística e intercâmbio democrático que idealmente se deve falar. Após a apresentação de um primeiro statement temático por iniciativa de Anthony Braxton, aquilo a que depois se assiste é a uma sucessão e encadeado de tomadas de decisão que podem partir não tanto da iniciativa do próprio Braxton mas por este deixadas ao livre arbítrio de cada um dos músicos envolvidos no septeto.
 
É então que um dado músico, geralmente mobilizando duos ou no máximo trios, usa de uma sinalética ou de mnemónicas antecipadamente combinadas –  este ou aquele gesto, a indicação com os dedos de um determinado número ou a anotação em pequenos quadros de letras e outros sinais indicativos  – para iniciar a inserção, na música que está a ser produzida, de uma outra ideia musical, por mais breve que seja.
                                    
Estas iniciativas assentam num trânsito constante pelas várias composições de Braxton que estão sobre as estantes ou depositadas «em carteira», umas de maior duração e outras expressas em pequeníssimas frases ou meros apontamentos temáticos que servem de ligação.
 
É aqui que tudo pode tornar-se  (ou não)  interessante e mobilizador e é isto que é estimulado pelo próprio Braxton nos seus pares, indo ao ponto de os desafiar a introduzir «estratégias secretas» não previstas antecipadamente, assim se criando derivações na criação musical instantânea que se está a viver. É a sucessão destas propostas ou são os cortes bruscos nestes desvios  (pelo desenvolvimento de uma lógica interna, no primeiro caso, ou pela sua denegação e antítese, no segundo caso), que podem  (ou não)  vingar, em termos de adopção, por parte dos restantes músicos.
 
Como se compreenderá, para além da sempre intrigante dramaturgia da comunicação gestual e musical, é a elevada imprevisibilidade na conjugação espontânea destas composições prévias e as dezenas de formas possíveis para encaixá-las neste ambicioso puzzle que são susceptíveis de tornar este obsessivo «caos organizado» num objecto artístico suficientemente consistente na sua permanente volatilidade ou penosamente frágil na episódica condução a becos sem saída.
 
Nesta vertente prioritária do conceito Ghost Trance Music –  a da composição e suas várias formas de dispersão e subversão  –, não apenas o próprio Anthony Braxton se revelou soberano, como seria natural, nas opções que propôs. Também o contrabaixista Chris Dahlgren (na foto) e, sobretudo, o trompetista Taylor Ho Bynum, se mostraram felizes na sugestão de momentos de diversificação numa performance musical que, pelo contrário, acabaria por pautar-se em geral por uma desarmante uniformidade.
 
Entretanto, também na segunda vertente –  a da improvisação individual ou colectiva que funcionam como veredas e atalhos, mais ou menos longos, na passagem de uma composição para outra  –, a noite não foi propriamente das mais entusiasmantes.
 
É certo que as impetuosas irrupções de Braxton nos saxofones soprano e sopranino  (já que o alto padeceu de uma captação deficiente)  foram correspondidas, à altura, pelos momentos de ataque conjunto, em clusters de configuração e desenvolvimento aleatório, bem impulsionados pela bateria de Aaron Siegel. Mas outras intervenções solísticas, pela sua insipiência, estiveram aquém do que seria desejável, em particular as de Jessica Pavone  (violino, viola)  ou Mary Halvorson  (guitarra).  Mesmo a tuba de Jay Rozen raramente ultrapassou a passividade de um suporte tímbrico pouco ágil e pouco movimentado. Teríamos, então, de esperar  (mais uma vez)  pelas «sacudidelas» de um Dahlgren ou de um Bynum, este explorando bem a diversidade tímbrica dos vários trompetes e cornetas, para romper a espaços com uma certa monotonia instalada em palco.
 
Neste sentido, o concerto pelo septeto de Anthony Braxton, agora realizado na Casa da Música, esteve algo distante da impressionante noite vivida em 2006 no Jazz em Agosto desse ano, na qual a incontrolável dose de risco inerente a este processo criativo conduziu então aos melhores resultados. O que só poderá constituir surpresa para quem invariavelmente acredita na infalibilidade dos seus ídolos ou jamais viveu as inexplicáveis venturas e desventuras de todo o jazz, enquanto música criada no momento.
                    

Septeto de Anthony Braxton
Casa da Música - Ciclo de Jazz 2008
Segunda-feira 28, 22:00, Sala Suggia
                                                                                     
Anthony Braxton (saxofones)
Taylor Ho Bynum (trompetes, corneta)
Jay Rozen (tuba)
Chris Dahlgren (contrabaixo)
Jessica Pavone (violino, viola)
Mary Halvorson (guitarra)
Aaron Siegel (bateria)


Nota de MJV - como quase sempre acontece na Internet, a compressão (não controlável) a que são sujeitas as fotos para publicação online pode ser de tal maneira radical que existe o risco de degradar a qualidade dos originais. Foi o que em parte aconteceu (e se lamenta) com as excelentes fotos gentilmente cedidas pelo fotógrafo João Messias.
                                                                                                                   


Publicado por Manuel Jorge Veloso o_sitio_do_jazz às 16:59
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